FAA – Fundação Educacional Dom André Arcoverde

FACEV – Faculdade de Ciências Econômicas de Valença

NUPE – Núcleo de Pesquisa e Extensão da FACEV

 

 

PROJETO

CARROCEIROS DE VALENÇA

Valença, 2007

 

Projeto Carroceiros de Valença

 

Orientação e Elaboração do Relatório:

Professor-Doutor Antonio Marcelo Jackson F. da Silva

Alunos de Graduação envolvidos no Projeto:

Clayre da Silva Montes

Edivaldo Braga Fonseca

João Rafael da Silva Marques Santos

Karla Ramos da Silva

Rosalina Maria de Oliveira

 

Introdução

 

As atividades econômicas envolvendo tração animal perdem-se na memória das sociedades e, de certa maneira, seu desenvolvimento e manutenção são inversamente proporcionais ao desenvolvimento das técnicas: quanto mais a tecnologia se esmerou – principalmente a contar do século XVIII – menores foram os espaços para o uso de animais no dia-a-dia dos povos.

Contudo, se isto pode se tomado como paradigma para o entendimento mais geral, a observação detalhada nos leva a perceber que a realidade não condiz com a teoria, ou seja, a multiplicidade de tempos (incluindo, aqui, os tempos tecnológicos) convive em nosso presente de forma indistinta ao que se pressupõe.

Assim, para o caso específico dos carroceiros, profissionais que utilizam a tração animal para sua lida diária, a expectativa seria a não-existência dos mesmos, senão no século XXI, pelo menos nas cidades mais urbanizadas e desenvolvidas. E é exatamente o contrário o que se observa. Apenas para citarmos, dos núcleos urbanos mais humildes até municípios como São Luís-MA, ou mesmo Porto Alegre-RS, Brasília-DF, Belo Horizonte-MG e São Paulo-SP, a paisagem citadina inclui esses trabalhadores e produz os mais variados debates que vão da necessidade dos mesmos respeitarem as leis de trânsito, transitam pela saúde dos animais e chega a questão ambiental.

Nesse sentido, Valença, município do centro-sul-fluminense, não é exceção à regra. A existência desses trabalhadores ainda que em número relativamente pequeno torna necessária a elaboração de seu perfil e levantamento de suas atividades.

Por outro lado, a partir de experiências anteriores (notadamente as de Belo Horizonte-MG e São Paulo-SP), percebe-se a diversificada forma de abordagem do tema: a primeira, desenvolvida pela prefeitura de São Paulo, direciona seu estudo para a montagem efetiva do perfil desse trabalhador (idade, escolaridade, tempo de trabalho ect.) e, a segunda, realizada no município de Belo Horizonte por Marta Ferreira Santos Farah e Helio Batista Barboza (trabalho posteriormente encampado pela UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais), preocupa-se com a questão ambiental, transformando-os em agentes para o combate à degradação urbana.

No presente estudo, procuraremos elaborar o perfil desse profissional levando em conta tanto os aspectos do trabalho e do trabalhador, quanto das condições do animal e de limpeza urbana.

 

Perfil dos Carroceiros: A – em relação ao profissional

1) sexo:

(1) - masculino   (2) - feminino

2) faixa etária:

(1) - abaixo dos 15 anos   (2) - de 16 a 20 anos   (3) de 21 a 25 anos   (4) de 26 a 30 anos

(5) de 31 a 35 anos   (6) de 36 a 40 anos   (7) de 41 a 45 anos   (8) de 46 a 50 anos

(9) de 51 a 55 anos   (10) de 56 a 60 anos   (11) acima de 61 anos

3) estado civil: (1) casado   (2) solteiro  (3) viúvo   (4) outro

4) número de filhos dependentes: (1) 1  (2) 2  (3) 3  (4) 4 ou mais

5) número de outros dependentes: (1) 1  (2) 2  (3) 3 (4) 4 ou mais

6) residência:  bairro___________________________________

7) escolaridade:

(1) sem instrução   (2) fundamental incompleto   (3) fundamental completo  

(4) médio incompleto   (5) médio completo

8) exerceu alguma outra profissão antes de ser carroceiro: (1) sim   (2) não

9) qual: __________________________________

10) como cobra pelo seu serviço:

(1) pelo tipo de serviço   (2) pela distância a ser trasladada  (3) ambos

11) necessita de ajudante: (1) sim   (2) não

12) tipo de serviço mais prestado (classificar no máximo dois serviços):

(1) transporte de material de construção (terra, areia, tijolos etc.)

(2) transporte de mudanças domésticas (móveis, eletrodosmésticos etc.)

(3) transporte de lixo  

(4) transporte de entulho

(5) outros – qual: ___________________________________________

13) quanto cobra pelo serviço:

a – transporte de material de construção: ___________________

b – transporte de mudanças: _____________________________

c – transporte de lixo: __________________________________

d – transporte de entulho: _______________________________

e – outros: ___________________________________________


14) por semana (de domingo a sábado), quantas vezes são solicitados os seus serviços:

(1) até cinco vezes   (2) de seis a dez vezes   (3) de onze a quinze vezes

(4) mais de dezesseis vezes

15) faturamento mensal:

(1) até R$380,00   (2) de R$381,00 a R$760,00   (3) de R$761,00 a R$1.140,00

(4) mais de R$1.141,00

16) há quanto tempo exerce a profissão:

(1) até cinco anos   (2) de seis a dez anos   (3) mais de dez anos

17) possui conta bancária: (1) sim   (2) não

B – em relação ao transporte

18) sua carroça é emplacada: (1) sim   (2) não

19) existem leis de trânsito específicas para o carroceiro: (1) sim   (2) não (3) não sei

20) existem horários para a carroça circular nas ruas da cidade:

(1) sim   (2) não

21) quanto é gasto com a alimentação do cavalo ou similar por mês:

(1) até R$50,00   (2) de R$51,00 a R$100,00   (3) mais de R$100,00

22) qual a idade do animal:

(1) até 5 anos   (2) entre seis e dez anos   (3) 11 anos ou mais

23) o animal é vacinado: (1) sim   (2) não

24) se a resposta for sim, qual vacina: _____________________________________

25) algum outro cuidado veterinário: (1) sim   (2) não

26) se a resposta for sim, qual cuidado: _____________________________________

27) os excrementos do animal são recolhidos durante a prestação do serviço:

(1) sim   (2) não

28) tem local próprio para seu animal: (1) sim   (2) não

29) se a resposta for não, paga aluguel: (1) sim   (2) não

30) quanto paga de aluguel: ______________________________________________

31) o ponto de apoio determinado pela prefeitura é: (1) bom   (2) regular   (3) ruim

 

Perfil dos Carroceiros – Análise Estatística

 

A – em relação ao profissional

 

Os dados a seguir foram coletados no dia 23 de agosto de 2007, no pátio da Fundação Educacional Dom André Arcoverde, a partir da iniciativa e solicitação da Faculdade de Medicina Veterinária de Valença. Foram entrevistados 17 profissionais, dos 18 registrados no Município.

A primeira pergunta realizada foi em relação ao sexo e a totalidade é do sexo masculino (sem que seja necessária demonstração por meio de gráfico).

Em seqüência, a Tabela 1 (pergunta 2) apresenta distribuição etária, onde 58% dos entrevistados (itens 3, 4, 5 e 6) localizam-se entre 21 e 45 anos. Vale informar que não foi registrada nenhuma pessoa entre 31 e 35 anos.

TABELA 1

A Tabela 2 (pergunta 3) diz respeito ao estado civil, apresentando o resultado abaixo. Cabe informar que não foi registrado nenhum viúvo e quase a metade dos entrevistados é solteiro (47%).

TABELA 2

 

A Tabela 3 (pergunta 4) nos informa sobre o número de filhos dependentes do profissional.

TABELA 3

 

 

A pergunta número 5 questionava se o carroceiro possuía, além dos filhos, outros dependentes diretos. Dos entrevistados, apenas 5 responderam que “sim” e desses, 1 (um) respondeu que possuía um único dependente, 3 (três) que possuíam dois dependentes e 1 (um) que possuía quatro dependentes, sendo desnecessária a elaboração de gráfico.

 

A Tabela 4 (pergunta 6) revela a residência dos carroceiros e nos informa que 46% do total tem moradia nos bairros de João Dias e Carambita.

 

TABELA 4

A Tabela 5 (pergunta 7) informa sobre a escolaridade dos entrevistados. Observa-se que majoritariamente os carroceiros possuem o Ensino Fundamental Incompleto, não sendo registrado nenhuma caso de analfabetismo.

 

A Tabela 6 (pergunta 8) questiona se o carroceiro possuía alguma profissão anteriormente, gerando o seguinte resultado:

TABELA 6

 

Dos que responderam afirmativamente, a Tabela 7 (pergunta 9) revela que dos carroceiros, percentual significativo (61%) foi industriário, funcionário da prefeitura e motorista de caminhão:

 

TABELA 7

 

 

 

Perguntados pela forma como cobram pelo serviço (Tabela 8, pergunta 10), os profissionais respondam que cobram agregando o tipo de serviço com a distância a ser percorrida (81%):

TABELA 8

 

Na efetivação do trabalho (Tabela 9, pergunta 11) a maior parte (53%) dos entrevistados informou que necessita de ajudante:

TABELA 9

 

A Pergunta 12 (Tabela 10) solicitava que o carroceiro indicasse o serviço mais prestado, produzindo o seguinte resultado:

 

TABELA 10

 

 

Em seqüência, a pergunta 13 (Tabelas 11, 12, 13 e 14) solicitava informações quanto ao preço cobrado por cada serviço e a mesma apresentou o seguinte resultado:

TABELA 11

TABELA 12

 

TABELA 13

 

TABELA 14

 

A pergunta 14 (Tabela 15) solicitava a informação de quantas vezes, por semana, era solicitado o serviço do carroceiro, apresentando o resultado a seguir:

TABELA 15

 

Procurando agregar as informações sobre tipos de serviço, preço e quantidade de vezes em que trabalhava, a pergunta 15 (Tabela 16) solicitava o faturamento mensal do carroceiro.

TABELA 16

 

A pergunta 16 (Tabela 17) pedia que o carroceiro informasse o tempo na profissão.

 

TABELA 17

Figura 1

 

Complementando as informações sobre a vida financeira do profissional, a pergunta 17 (Tabela 18) informa se o carroceiro tem conta bancária.

 

TABELA 18

 

B – em relação ao transporte e ao animal

 

O mesmo tem início com a pergunta 18 (Tabela 19) que informa se a carroça é emplacada.

TABELA 19

 

A pergunta 19 (Tabela 20) questiona o profissional se existem leis de trânsito para as carroças.

TABELA 20

 

Em seguida, foi perguntado ao carroceiro se existiam horários específicos estabelecidos pela Prefeitura Municipal para a sua atividade (pergunta 20, Tabela 21)

TABELA 21

 

Na seqüência foi perguntado ao profissional quanto ele gastava por mês na alimentação do animal de tração (pergunta 21, Tabela 22).

TABELA 22

 

Foi solicitada também a idade do animal (pergunta 22, Tabela 23).

TABELA 23

 

A pergunta 23 (Tabela 24) informa se o animal é vacinado.

 

TABELA 24

 

Daqueles que responderam positivamente a pergunta anterior, foi solicitado que informasse a vacina específica (pergunta 24, Tabela 25)

TABELA 25

 

Em seguida, foi perguntado se o carroceiro se o animal possuía algum outro cuidado veterinário (pergunta 25), onde somente dois entrevistados responderam que “sim”: o primeiro, informando aplicações de soro e, o segundo, cuidado dos ferimentos.

A pergunta 27 (Tabela 26) questionava se o carroceiro recolhe os excrementos do animal durante a prestação de serviços.

TABELA 26

A pergunta 28 (Tabela 27) solicitava que o carroceiro informasse se possuía local para acomodar o anima e a carroça.

Tabela 27

As perguntas 29 e 30 questionavam se o profissional pagava aluguel para guardar o animal e a carroça. Neste quesito, somente um único entrevistado respondeu que “sim” e o valor era de R$50,00 por mês.

Por último, foi questionado (pergunta 31, Tabela 28) sobre qual opinião os profissionais possuíam sobre o “ponto” determinado pela Prefeitura Municipal para concentração dos carroceiros.

TABELA 28

 

Análise Técnica

 

As conclusões extraídas da pesquisa tanto em relação exclusivamente ao profissional, quanto ao transporte, revelaram poucas novidades quando comparadas aos trabalhos citados no início do relatório.

Assim, a escolaridade, a renda, o valor cobrado pelos serviços, apenas para citarmos alguns itens, informam que este profissional está classificado entre os mais humildes, mesmo porque sua atividade não exige nenhum preparo técnico.

Contudo, surpreendeu o relatório ao informar sobre a faixa etária desses trabalhadores. Se levarmos em consideração o apogeu da vida útil de um trabalhador e que este a exerce de 20 até pelo menos os 45/50 anos, a pesquisa revela que 61% dos mesmos faz-se presente nessa atividade. Em outras palavras, percebe-se que a mão-de-obra pouco qualificada empurra um número razoável de trabalhadores para profissões pouco rentáveis, condenando-os, de certa forma, ao expressivo índice estatístico da população de baixa renda. Por outro lado, ainda que não tenha feito parte da pesquisa, subentende-se que eles também engrossam – com enormes possibilidades – o número de assistidos por programas assistencialistas do Poder Público, onerando ainda mais o Tesouro municipal, estadual ou federal pela baixa profissionalização dessas pessoas.

Por outro lado, esse despreparo profissional não está vinculado a inexistência de atuação anterior. Conforme os dados apresentados, 61% desses trabalhadores exerceram alguma profissão antes de se tornar carroceiro, o que subentende, ou a redução das vagas de trabalho da atividade pretérita, ou a baixa exigência de preparo técnico também nessas áreas. Em dois casos (de ex-industriários e ex-motoristas de caminhão) pode-se deduzir que estes fazem parte de um contingente maior de trabalhadores que padeceram com a decadência da indústria têxtil de Valença, notadamente nos últimos quinze anos, e que foram empurrados para outras atividades profissionais.

Por fim, atuam há até dez anos na profissão, sendo requisitados em seus serviços de cinco a dez vezes por semana, transportando, na maior parte das vezes, entulho.

Quanto ao transporte, 47% têm a carroça emplacada e sabem que existem leis de trânsito específicas, o que revela percentuais baixos visto que efetivamente as leis de trânsito brasileiras possuem itens específicos sobre a atividade, incluindo o emplacamento. Curiosamente, o inverso ocorre quanto à informação sobre se existe horário de funcionamento determinado pela prefeitura: 59% afirmaram que “sim”, quando, na verdade, tal orientação não existe.

Sobre os cuidados com o animal, mais de metade gasta em torno de R$50,00 por mês com alimentação, já o vacinou contra a raiva, recolhe os excrementos concomitantemente à atividade e têm local para guarda-lo. Entretanto, existia a prévia concepção de que este tipo de atividade utilizava animais velhos (com mais de dez anos). O resultado desmentiu esse pré-entendimento: 61% dos cavalos têm menos de dez anos, o que implica na utilização de animais jovens para um serviço por completo depreciativo.

Frente a isso, dos itens observados, a faixa etária tanto dos trabalhadores quanto dos animais chamaram a atenção por fugirem das médias nacionais. Caberia, evidentemente, procurar a resposta para este quadro e sua possível solução em médio e/ou longo prazo.