
FACEV/FAA
Faculdade de Ciências Econômicas de Valença
Marcos Afonso de Almeida
Diretor
Edson Santos de Mendonça
Departamento de Formação Econômica Geral e Setorial
Reinaldo Cardoso Dias
Departamento de Formação geral
Sônia Cristina Vasconcelos Vilela
Departamento de Formação Histórica e Social
Marise Resende Figueira
Departamento de Pesquisa e Planejamento
Marisa Alves Natal de Freitas
Centro de Apoio ao Estudante
Antonio Marcelo Jackson F. da Silva
NUPE – Núcleo de Pesquisa e
Extensão
O IMPACTO SOCIAL E ECONÔMICO DO PÓLO TÊXTIL
NO MUNICÍPIO DE RIO DAS FLORES-RJ
RELATÓRIO FINAL
Idealização, coordenação da pesquisa de campo e
relatório:
Professor-Doutor Antonio Marcelo Jackson F. da Silva
Equipe:
Carlos Eduardo de Oliveira Silva
Luice Maria de Azevedo Oliveira
Rosalina Maria de Oliveira
Fabiana Mara de Souza
Roberto Maia Santana
Ricardo Pereira da Silva Júnior
Concretizado,
na maior parte das vezes, pela ação conjunta da iniciativa privada com o Poder
Público, o desenvolvimento econômico no Brasil viu-se atrelado a contar do
início da segunda metade do século XX a medidas governamentais que podem ser
resumidas em dois tópicos, a saber, um conjunto de incentivos fiscais como
estímulo à instalação de empresas e, principalmente, o respeito a roteiros
macro-estruturais subordinados a termos da economia política. Assim, caso desejássemos encontrar marcos
históricos que identifiquem tais procedimentos – sem a preocupação de
construirmos uma história propriamente dita de todo o processo -, exemplos como
o da indústria automobilística
Contudo, se medidas como essas resolvem, nos liames do possível, as questões macro-econômicas no binômio “economia-país”, o mesmo não pode ser dito quando são verificados os impactos produzidos localmente, ou seja, quando se mensura as alterações provocadas no município aonde o investimento se deu. Sem nenhum critério técnico ou metodológico na apreensão das fontes, relatos coletados sobre as empresas instaladas no sul-fluminense, por exemplo, indicam um grau baixíssimo de inclusão de moradores nas indústrias, mesmo as que exigem no processo de admissão a residência na cidade1. Em outras palavras, a expectativa pelo retorno econômico das benesses ofertadas às empresas (isenção de impostos, cessão do terreno etc.) por meio do salário pago aos funcionários – aumentando a circulação de dinheiro no município -, frustra-se, e pouco ou nada se vê em termos de desenvolvimento local.
Sem dúvida, um dos fatores que mais contribui para a baixa inserção da população local na indústria instalada vincula-se a capacitação profissional desses indivíduos; inaptos para as atividades econômicas que serão realizadas, os moradores do lugar são naturalmente excluídos no processo de seleção, independentemente dos incentivos fiscais ou qualquer outro estímulo recebidos por essas empresas, cujo assentamento, vale repetir, ocorre muito mais por um projeto macro-econômico do que pelas necessidades micro-sociais.
Paralelamente aos termos acima relatados, outros elementos no plano de
uma economia política aparecem e interferem nas ações e no entendimento sobre
tais questões. Se, nos moldes clássicos
do liberalismo, a iniciativa privada deveria solucionar por meio da competição
e competência as disputas presentes no assim chamado mercado, funcionando com
uma “lógica própria” cujos resultados seriam proveitosos ao “universo social”,
o século XX produziu o entendimento de que o “mundo econômico” não funcionava
ou se resolvia de forma autônoma ao “mundo político”, ou seja, em termos tanto
teóricos quanto práticos a ação e posicionamento do Estado eram condições
primárias para o funcionamento da economia e seus reflexos na sociedade,
pairando apenas a dúvida sobre a definição da forma a ser apresentada pelo
Poder Público. Assim, constituíram-se
dois modelos que servem conjuntamente para a inserção e compreensão do “mundo
político” por sobre o “mundo econômico”: o liberal-utilitarismo e o liberal-contratualismo. O primeiro caso, define-se pelo princípio de
que a interferência do Estado na economia ou sociedade dá-se pela “absoluta
necessidade”, ou seja, a presença do Poder Público ocorre quando se configura
uma situação tal que os atores econômicos e/ou políticos envolvidos não possuem
parcialidade para a resolução de um impasse, restando a salvaguarda do Estado
como juiz criterioso, e esta interferência ocorre unicamente sobre o grupo
O segundo caso é entendido partindo-se do princípio de que, espontaneamente, os atores sociais e/ou econômicos criam condições de absoluta desigualdade, sem que seja possível soluciona-la de forma “natural” pelos membros do grupo. Assim, cabe ao Estado procurar de maneira artificial criar condições para que essa distorção não seja ampliada, administrando os conflitos e buscando algum equilibro2.
Reunindo as explicações sucintamente apresentadas (o desenvolvimento econômico do país nas últimas décadas e seus impasses e a definição do papel do Estado), pode-se, enfim, discorrer sobre a ação desenvolvida no município de Rio das Flores-RJ. Vejamos seu vínculo com os termos anteriores.
Por intuição ou raciocínio lógico, algumas cidades do país optaram nos últimos anos em trocar a estratégia tradicional da subordinação às composições macro-econômicas, que envolviam a acolhida de regras que na maior parte das vezes pouco ou nada comungavam com os interesses locais, por fórmulas que se construíam a partir de suas condições particulares, fossem elas culturais, físicas ou geográficas. Assim, ao invés da “eterna esperança” de que a União ou a Unidade da Federação determinasse a instalação de uma unidade fabril no território municipal, algumas prefeituras adotaram a prática de pesquisar a atividade econômica que melhor iria interagir e produzir resultados sociais na localidade.
Indubitavelmente, essa “troca” de uma expectativa macro-estrutural por uma ação micro-social envolve, antes de tudo, solucionar quatro questões básicas de “ação coletiva” (quando a obtenção de um determinado resultado envolve, necessariamente, a participação de todos ou quase todos os atores envolvidos, mas que são detentores de potenciais e interesses distintos):
1) definição de qual atividade econômica será materializada;
2) capacitação profissional dos indivíduos que serão incorporados à referida atividade;
3) identificação e aceite de uma empresa interessada em atuar no lugar ou a criação de uma cooperativa de trabalhadores;
4) linhas de crédito fomentadas por bancos, com juros acessíveis e compatíveis para um período de consolidação do empreendimento.
Vejamos cada um pausadamente.
Ainda que em termos teóricos a definição da atividade econômica a ser implementada possa partir tanto dos habitantes locais quanto da prefeitura, percebe-se que é o poder político que acaba por arregimentar tal ação. Dessa maneira, tomando por paradigma o caso de Rio das Flores-RJ, o levantamento efetuado pelo município nos anos de 2000 e 2001 junto à população, onde em questionário livre perguntava-se sobre as aptidões de cada morador, serviu de base para a elaboração de um “mapa das vocações profissionais” (ou “censo empresarial”), permitindo a criação de um ponto de partida para os aos seguintes.
O passo seguinte, ainda no mesmo paradigma, foi a capacitação profissional dessas vocações. Por meio de convênios com o SENAI e SENAC, a prefeitura local deu início a diversos cursos onde o “aluno/morador” recebeu informações técnicas necessárias para melhor atuar na atividade escolhida. Nesse caso, vale registrar, que este aprimoramento também pode ser feito por entidades como o SEBRAE ou IES (Instituições de Ensino Superior) que possuam cursos tecnológicos. Para as IES, ações como essas podem se dar tanto por convênios com a prefeitura quanto por meio de Projetos de Extensão Universitária (onde a capacitação profissional é acompanhada por pesquisas que verificam o impacto provocado pelos cursos junto à população).
Dando seqüência ao raciocínio, a etapa posterior é a identificação e também o convencimento de uma empresa predisposta a atuar no município ou a criação de cooperativas de trabalhadores. Em Rio das Flores-RJ, ambos os casos ocorreram, resultando na criação de quatro cooperativas de trabalhadores na área têxtil e com a instalação dos empreendimentos.
Por fim, nos últimos anos o Governo Federal criou condições institucionais para o surgimento e/ou consolidação de linhas de crédito do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES para empreendimentos como este.
Se, no âmbito local, o Pólo Têxtil de Rio das Flores-RJ escapou dos dilemas macro-econômicos expostos no início da presente dissertação, encontrando na própria realidade micro-social as indicações necessárias para seu desenvolvimento, no nível da economia política paira a pergunta de como classificar o conjunto de medidas tomadas pela prefeitura. Cabe frisar que tal questionamento não se classifica por um simples capricho acadêmico. Ao contrário, perceber se um ato econômico estimulado pelo poder local deve ser classificado como um ato “liberal-utilitarista” ou “liberal-contratualista” é definir também que tipo de Estado/Poder Público melhor produz resultados na realidade social e econômica brasileira média. Entender se é um “Estado mínimo” ou se é um “Estado que administra as vicissitudes sociais” aquele que encontra resultados plausíveis, é, indubitavelmente, encontrar uma indicação técnico-racional para futuros empreendimentos na mesma esfera.
ANÁLISE
ESTATÍSTICA
Ao todo, foram entrevistados, por meio de questionário, 147 funcionários nas dependências do pólo têxtil durante suas atividades cotidianas.
A tabela 01 mostra, por sexo, o total de entrevistados, observando que sua maior parte é composta pelo sexo feminino (62%), contra 38% do sexo masculino.
TABELA 01

1) HOMENS
2) MULHERES
A Tabela 02 apresenta a distribuição etária dos funcionários, observando que sua maioria (76%) é composta por pessoas abaixo dos 30 anos de idade, com um significativo percentual de trabalhadores abaixo dos 20 anos (24%).
TABELA 02

1) DE
2) DE
3) DE
4) DE
5) ACIMA DE 35
Conforme os dados da Tabela 03, observa-se que 55% dos funcionários ainda não encerraram o ensino médio, ainda que, em termos unitários, tenhamos o expressivo índice de 42% com este ciclo completo.
TABELA 03

1) FUNDAMENTAL INCOMPLETO
2) FUNDAMENTAL COMPLETO
3) MÉDIO INCOMPLETO
4) MÉDIO COMPLETO
5) SUPERIOR
Torna-se importante destacar que, por meio do cruzamento de dados das Tabelas 02 e 03, observa-se a seguinte distribuição:
Homens –
Faixa Etária
Mais de 35 anos: 02
Mulheres –
Faixa Etária
Mais de 35 anos: 17
Homens – Escolaridade
Fundamental Incompleto: 13
Fundamental Completo: 03
Médio Incompleto: 17
Médio Completo: 20
Superior: 02
Não Responderam: 01
Mulheres – Escolaridade
Fundamental Incompleto: 23
Fundamental Completo: 06
Médio Incompleto: 18
Médio Completo: 41
Superior: 02
Não Responderam: 01
Nos dados analisados, observa-se que a maior discrepância (quando relacionadas idade e escolaridade) aparece no caso de mulheres com 30 anos ou mais, tendo o Fundamental Incompleto; ao mesmo tempo em que, para os casos de homens e mulheres entre 16 e 20 anos, a maior parte apresenta escolaridade compatível, ou seja, Médio Completo ou Incompleto.
Já as Tabelas 04, 05 e 06 devem ser lidas conjuntamente e da seguinte forma. Dos entrevistados, 35% (51 funcionários) indicaram ser seu primeiro emprego, 24% (35 funcionários) informaram que trabalhavam à época de sua contratação e 41% (61 funcionários) estavam desempregados.
Do desempregados, 37% informaram que se encontravam nessa situação há seis meses, 20%, há um ano e 43% há mais de um ano.
TABELA 04

1) SIM
2) NÃO
TABELA 05

1) SIM
2) NÃO
TABELA 06

1) DESEMPREGADOS HÁ SEIS MESES
2) DESEMPREGADOS HÁ UM ANO
3) DESEMPREGADOS HÁ MAIS DE UM ANO
As Tabelas 07 e 08 demonstram que 79% dos entrevistados ou aumentaram
ou mantiveram seus ganhos salariais. Por outro lado, a grande maioria (98%)
está na faixa de
TABELA 07

1) MENOR QUE O ATUAL
2) IGUAL AO ATUAL
3) MAIOR QUE O ATUAL
TABELA 08

1) DE R$350,00 A R$700,00
2) DE R$701,00 A R$1.502,00
3) ACIMA DE R$1.503,00
As Tabelas 09, 10, 11 e 12, apresentam o comportamento dos funcionários em relação ao consumo de itens básicos (alimentação, higiene, limpeza etc.) e itens complementares (vestuário, calçados etc.), antes e depois da admissão no Pólo Têxtil. Verifica-se que, nas condições apresentadas, a maioria das pessoas efetuava suas compras no município de Valença. Contudo, o ingresso no Pólo Têxtil provocou uma maior preferência por esse município citado - identificada, inclusive, pela queda do consumo em outras cidades que não fossem Rio das Flores ou Valença. Assim, no momento anterior ao ingresso na empresa, 64% dos entrevistados efetuavam suas compras básicas em Valença (contra 31% em Rio das Flores e 5% em outros municípios). Após o ingresso, os índices saltaram para 72% em Valença, 27% em Rio das Flores e 1% em outros municípios.
Tal comportamento se repetiu no consumo complementar, pois, antes do ingresso, 81% comprava em Valença, 13% em Rio das Flores e 6% em outros municípios. Com o ingresso, 86% passaram a efetuar suas compras em Valença, 11% em Rio das Flores e 3% em municípios distintos.
TABELA 09

1) RIO DAS FLORES
2) VALENÇA
3) OUTRAS CIDADES
TABELA 10

1) RIO DAS FLORES
2) VALENÇA
3) OUTRAS CIDADES
TABELA 11

1) RIO DAS FLORES
2) VALENÇA
3) OUTRAS CIDADES
TABELA 12

1) RIO DAS FLORES
2) VALENÇA
3) OUTRAS CIDADES
A Tabela 13 diz respeito ao questionamento sobre o nível de vida após o ingresso no Pólo Têxtil. Dos entrevistados, 23% informaram que não havia melhorado, 61%, disseram que melhorara um pouco e 16% informaram ter seu nível de vida melhorado muito.
TABELA 13

A Tabela 14, por sua vez, informa sobre as atividades de lazer preferidas pelos funcionários. Dessa forma, 60% dos entrevistados afirmaram que seu principal lazer é a televisão, 18% praticam esportes, 8% dedicam seu tempo disponível à leitura, 2% preferem ir ao cinema e 12% apresentaram as mais diversas opções. Registre-se o surpreendente índice de 8% que se identificam com a leitura – particularmente, por suas condições econômicas e profissionais.
TABELA 14

1) TELEVISÃO
2) CINEMA
3) LEITURA
4) ESPORTES
5) OUTRAS
A Tabela 15 versa sobre os meios de deslocamento trabalho/empresa dos funcionários. Assim, 92% andam de ônibus, carro, moto e a pé, totalizaram 1% cada, e 5% por outros meios.
TABELA 15

A Tabela 16 informa sobre o tempo gasto no deslocamento residência/empresa. Dessa maneira, 96% levam menos de meia-hora para efetuarem o trajeto, 3%, entre 30 e 60 minutos, e 1% mais de uma hora.
TABELA 16

Quando questionados sobre o estado de suas relações familiares após o ingresso no Pólo Têxtil (Tabela 17), 70% informaram que estas melhoraram, contra 30% que afirmaram que não houve melhora identificável.
TABELA 17

Por outro lado, 91% informaram que suas
relações de amizade melhoraram após o ingresso no Pólo Têxtil, contra 9% que
afirmaram não existir melhora neste aspecto (Tabela 18).
TABELA 18

A Tabela 19 vincula-se às atividades profissionais anteriores. Assim, 23% dos entrevistados informaram que trabalharam anteriormente na área têxtil, enquanto 77% disseram que jamais atuaram no setor.
TABELA 19

1) SIM
2) NÃO
Quando questionados sobre benefícios trazidos em outras áreas que não fossem a família ou vínculos de amizade, 66% responderam positivamente e 34% informaram que não.
TABELA 20

1) SIM
2) NÃO
A Tabela 21 informa sobre os desejos profissionais dos entrevistados. Destacando somente os mais expressivos, 42% dos funcionários escolheram a Informática como curso preferencial, 15% optaram por cursos na área Têxtil, 8% preferem Mecânica, coincidindo com Enfermagem (8%), 5% escolheram a Culinária e 3% Desenho.
TABELA 21

1) INFORMÁTICA
2) TÊXTIL
3) CULINÁRIA
4) MECÂNICA
5) DESENHO, MATEMÁTICA
6) EDUCAÇÃO FÍSICA
7) ATENDENTE
8) GESTÃO DE FINANÇAS
9) CABELEIREIRO
10) ENFERMAGEM
11) MAGISTÉRIO
12) TEATRO
13) ELETRICIDADE
14) DIREITO
15) MÚSICA
16) ADMINISTRAÇÃO, CONTABILIDADE
17) OUTROS
As Tabelas 22 e 23 informam sobre a movimentação bancária dos entrevistados, antes e depois do Pólo Têxtil. Assim, 35% informaram que antes de seu ingresso possuíam conta em banco; índice que subiu para 61% após o ingresso.
TABELA 22

1) SIM
2) NÃO
TABELA 23

1) SIM
2) NÃO
Conforme abordado na apresentação do corrente
relatório, a pesquisa realizada no Pólo Têxtil de Rio das Flores visa
identificar tipologicamente a ação do poder público local ao oferecer condições
para a instalação da empresa, e a lista de perguntas apresentadas no
questionário pode ser dividida em três módulos:
1)
o primeiro, que trata exclusivamente das
condições desse funcionário (sexo, faixa etária, atividades de lazer, atividade
profissional anterior, cursos de qualificação, residência, forma de locomoção,
tempo de deslocamento) independentemente da empresa;
2) o segundo, que engloba a influência da empresa na vida do funcionário (primeiro emprego, empregado ou desempregado, nível salarial, faixa salarial, melhora no nível de vida, relações familiares e de amizade, benefícios em outras atividades, movimentação bancária, residência) identifica se a ação do Poder Público pode ser classificada como Liberal-Utilitária;
3) e, o terceiro, que se vincula a inserção desse funcionário no meio social e econômico, antes e depois de seu ingresso na empresa (compras básicas antes e depois, compras complementares antes e depois, primeiro emprego, empregado ou desempregado, nível salarial), ou seja, identifica se a ação do Poder Público pode ser classificada como Liberal-Contratualista.
Torna-se importante observar que os itens primeiro emprego, empregado ou desempregado, nível salarial aparecem nos módulos 2 e 3 em virtude de que suas informações tanto podem contribuir para uma classificação ou outra – ou mesmo, ambas.
1) PERFIL DO FUNCIONÁRIO
O primeiro passo, então, é traçarmos o perfil desse funcionário, considerando a relação de mulheres para homens na fração aproximada de 3/2 (62% de mulheres e 38% de homens). Assim, observa-se que 76% dos funcionários estão entre 16 e 30 anos, sendo 59 mulheres e 53 homens, sendo que há clara vantagem nessa faixa etária para os homens empregados em virtude da fração apresentada.
Quando, entretanto, observamos a escolaridade, verifica-se um equilíbrio entre mulheres e homens, visto que, 16 homens cursaram ou estão cursando o Fundamental e 29 mulheres encontram-se na mesma situação. Tal proporção se repete no Ensino Médio, quando 37 homens e 59 mulheres cursaram ou estão cursando esta fase.
No tocante à forma de locomoção e tempo de deslocamento, verifica-se que o desgaste é mínimo, visto que a maior parte utiliza o ônibus da residência para o trabalho e que isto não ultrapassa 30 minutos.
Quanto ao lazer, os dados são coerentes com o padrão médio brasileiro quando apresentam 60% dos entrevistados tendo a televisão como principal atividade.
Pode-se concluir pelo índice de 77% que a opção pelo emprego no Pólo Têxtil não está vinculada a uma atividade anterior semelhante, podendo-se deduzir que esta escolha deu-se somente pela oportunidade de trabalho.
Por fim, dentro da construção do perfil desse funcionário, nota-se que os interesses por cursos de qualificação não destoam da média brasileira atual em virtude da ampliação dos horizontes na Informática, ou então, o desejo por cursos na área têxtil – em virtude da corrente profissão. O que se torna interessante é o aparecimento de itens como Culinária e Enfermagem nesse rol de interesses.
3) LIBERAL-UTILITARISMO
Como já foi dito anteriormente, o modelo liberal-utilitarista pressupõe que a ação do Estado se dá quando é absolutamente necessário e tem como conseqüência a alteração das condições sociais, econômicas e políticas do grupo cuja ação resume o principal objetivo. Assim, os percentuais 35% e 41% representando o primeiro emprego e a nova inserção no mercado de trabalho, respectivamente, indicam claramente que a criação da empresa enquadra o Poder Público local dentro do modelo em tela, ou seja, as chances de que este grupo de indivíduos fosse incorporado à economia ativa seria reduzida com a inexistência da empresa – particularmente, pelo expressivo percentual de desempregados a mais de um ano. Somando-se a isso, 58% dos entrevistados afirmaram que seus salários ou se mantiveram na mesma faixa ou aumentaram, o que configura mais ainda o modelo liberal-utilitarista. Vale comentar que se os empregos fossem adquiridos, mas a maior parte dos entrevistados informasse que o salário permaneceu igual e/ou inferior à ocupação pretérita, tais indicadores revelariam uma ação liberal-contratualista – posto que o Poder Público estaria somente administrando uma desigualdade corrente.
Os outros índices apresentam resultados que também contribuem para este entendimento: 77% informam que o nível de vida melhor um pouco ou muito; 70% que suas relações familiares melhoraram; 91% que suas relações de amizade também progrediram (presumidamente, pelas novas relações pessoais com os outros empregados); 66% que o ingresso na empresa trouxe benefícios para outras atividades e 61% passaram a ter movimento bancário.
Frente a isso, observa-se que os percentuais obtidos nos termos que se vinculam ao modelo liberal-utilitarista, os resultados foram expressivos, pois alteraram razoavelmente a vida dessas pessoas.
4) LIBERAL-CONTRATUALISMO
Como apresentado anteriormente, o modelo liberal-contratualista define-se pela ação do Estado em administrar os problemas latentes da sociedade sem, entretanto, produzir alguma isonomia social. Em outros termos, administrar as desigualdades presentes e evitar que as mesmas sejam ampliadas.
Frente a isso, observa-se que apesar do expressivo número de trabalhadores com o primeiro emprego, ou então, que reconquistaram espaço no mercado, o nível salarial da maior parte dos funcionários (98%) fixa-se na margem de até dois salários-mínimos. Dito de forma distinta percebe-se claramente que em termos de ganho médio, os valores são pouco expressivos, mas, concomitantemente, a situação econômica de cada um dos trabalhadores poderia estar em patamar bem abaixo do atual – caso não existisse o Pólo Têxtil -, o que configura a inserção da ação política no modelo liberal-contratualista.
Entretanto, se os aspectos que envolvem a inserção no
mercado de trabalho e salário (seja pelo primeiro emprego, seja pela re-ocupação),
as influências geradas pela renda obtida no Pólo Têxtil no nível local,
revelaram-se negativas. Observa-se uma queda nas compras, básicas e
complementares, feitas no município de Rio das Flores e que se relacionam
diretamente com a criação dos postos de trabalho e a opção de consumo dos
funcionários. Assim, antes da empresa, 31% das pessoas faziam suas compras
básicas (alimentação, higiene e limpeza etc.) no município, contra 27% após a
criação do empreendimento. O mesmo ocorreu com as compras complementares
(calçados, vestimentas etc.), caindo de 13 para 11%, antes e depois do Pólo,
respectivamente. Dessa maneira, nota-se que a ação do Poder Público local na
geração de empregos repercutiu negativamente no comércio da cidade, pois, ao
passarem a ter uma renda fixa mensal, os trabalhadores optaram por fazer suas
compras em Valença (município vizinho), com melhores ofertas de produtos
CONCLUSÃO
De acordo com os dados apresentados e analisados,
observa-se que a ação do Poder Público Municipal de Rio das Flores, no âmbito
da economia política, pode ser caracterizada exclusivamente dentro do modelo
liberal-utilitarista, ou seja, conseguiu promover benesses significativas para
a vida dos funcionários da empresa.
Contudo, o ganho obtido no nível macro-social não encontrou ecos no espectro municipal, visto que, a maior parte da renda gerada escoa para outro local (o município de Valença).
Algumas deduções podem ser feitas a partir dessa informação. A primeira delas é o entendimento de que a geração de empregos não pressupõe um aumento da renda local pela maior circulação de dinheiro, ou seja, o fato de se obter o salário em um a determinada localidade não obriga este empregado exercer seu papel de consumidor de forma endêmica.
Em segundo lugar, a geração de empregos deve ser acompanhada de uma política conjunta do comércio varejista local, sob pena de se perder a renda gerada, e sem esquecer que a instalação de uma empresa nesses moldes (por meio da influência do Poder Público), implicou necessariamente em alguma renúncia fiscal, ou seja, para o caso estudado, o município “perdeu duas vezes”: por deixar de arrecadar em nome da geração de empregos e por não arrecadar pela evasão dos rendimentos.
Por último, no plano teórico, a confirmação de que o ganho individual não refletirá, necessariamente, no coletivo, necessitando para tanto de ações articuladas com outras esferas para que aja o desenvolvimento pleno.
1 Segundo relatos, são comuns os casos de pessoas que alugam por temporada um imóvel no ato do ingresso na empresa ou então – por meio de acordo como moradores do lugar - apresentam endereços falsos.
2 Para melhor compreensão dos conceitos de liberal-utilitarismo e liberal-contratualismo, ver Wanderley Guilherme dos Santos. Os Paradoxos do Liberalismo: teoria e história. Rio de Janeiro: Revan, 1997.
3 A informação pouco precisa deve-se a ausência de uma pesquisa que verifique a renda média do comércio local antes e depois da instalação do Pólo Têxtil.